sábado, 7 de fevereiro de 2009

O DITO PELO NÃO DITO NAS EMPRESA (POR MÔNICA ALVARENGA)

Mônica não só faz uma análise da crise que está arrancando postos de trabalhos, apertando cintos e aterrorizando o mundo, como faz também, reflexões sobre a importância das empresas estarem preparadas para lidar com isso. E aí entra uma comunicação transparente e de responsabilidade.

É preciso cortar cabeças, diminuir custos, negociar salários etc., mas dá para fazer isso de maneira simples, profissional e ainda ganhar a compreensão de colaboradores que, às vezes, podem facilitar e aliviar o clima de terror que abate o restante que sobrevive em seus cargos. Aproveitem a leitura, é valiosa!



O DITO PELO NÃO DITO NAS EMPRESA
por Mônica Alvarenga*


Crise virou palavra de ordem e está quase que diariamente nas manchetes dos jornais. Empresas de todos os portes, afetadas ou não, agem com vistas a prevenir ou remediar os efeitos dessa onda mundial. O fantasma do desemprego ronda e assusta. Nessa hora, o melhor que as empresas tem a fazer é investir em comunicação. E quando falo em investir, não me refiro necessariamente a recursos materiais, mas à disponibilidade que a boa comunicação precisa encontrar em seus agentes. Se entre familiares, o dito fica pelo não dito (e vice-versa) com frequência, o que não dizer do universo corporativo?

A sensibilidade ampliada pelos rumores inerentes ao momento de crise exige dos interlocutores uma capacidade ainda maior de comunicar com precisão e clareza. Hoje, mais do que ontem, é preciso que o dito seja entendido por si só, sob pena de ser corrompido e distorcido pelo não dito. Ora, o dito é o que se expressa intencionalmente. Mas e o não dito? Quem domina a arte da comunicação, muita vezes se faz valer desse recurso, mas aqueles que o ignoram, não raro sentem seus efeitos de forma indesejada. Afinal, o ser humano, desejando ou não, intentando ou não, comunica o tempo todo. Dos fios do cabelo aos dedos dos pés, somos comunicação.

Nas palestras que faço em empresas, posso perceber o quanto a complexidade desse processo foi esquecida. Por isso, para que o dito valha por ele mesmo, compartilho algumas dicas que julgo preciosas para amenizar os efeitos da crise:

Seja objetivo
Tenha em mente o que e porque deseja comunicar. Seja o mais sintético que puder, pois quanto mais precisa for sua mensagem, menor a chance de dispersão de seu significado. Maior probabilidade, portanto, de alcançar o alvo. Seja ele o coração ou a mente de seu interlocutor.

Seja honesto sempre
A sinceridade é mãe da credibilidade e é com ela que você terá que contar quando quiser que suas mensagens tenham o efeito desejado. A maioria dos seres humanos são naturalmente desconfiados, o que afeta a decodificação (ou interpretação da mensagem transmitida). Se você tem a transparência como norma de conduta, verá que esse "filtro" será gradativamente eliminado em sua equipe.

Seja positivo
Ao ser portador de mensagens difíceis, como metas não alcançadas, demissões ou perdas de produção, você não precisa se ater ao lado negativo. Não se esqueça de que toda crise apresenta uma oportunidade de mudança. O bom comunicador deve ser capaz apresentar essa oportunidade, sem mascarar os resultados, afinal, não há rede de boatos (o famoso "disse-me-disse") que resista a uma história mal contada.

Está falando com quem?
Cada mensagem deve estar de acordo com o público-alvo. De que adianta chegar a padaria e perguntar ao padeiro sobre a cotação da farinha de trigo nacional no mercado externo? Seus interlocutores também exigem esse bom senso. Use uma linguagem que todos compreendam e não se esqueça de estabelecer o diálogo, que lhe proporcionará o retorno e a aferição da compreensão pretendida. Sem a comunicação de duas vias não há feedback e sem ele não há comunicação efetiva.

Abuse da criatividade e teste diferentes recursos
Há momentos em que as mensagens escritas surtem mais efeito, outros, exigem uma conversa, e ainda há aqueles que podem ser contornados ou resolvidos com envios de e-mail. Só a prática e a análise constante dos efeitos provocados, pelo retorno dos interlocutores, poderá determinar a melhor forma de comunicar.

Pergunte!
Quando começa uma abordagem com indagações, seja você chefe ou subordinado, está mostrando que não conhece todas as respostas e que a opinião do outro é relevante. Ao receber respostas, escute com todos os sentidos: além dos ouvidos, use o cérebro e os olhos, e não se atenha, nesse momento, à elaboração da resposta.

Repita e repita
Há pessoas que dizem que, em certos momentos, a mensagem precisa ser transmitida seis vezes para que todos as barreiras sejam rompidas e seu verdadeiro significado, compreendido. Então, se você acha que já falou e repetiu, pense em fazê-lo mais tantas vezes quanto necessário. De novo, use a criatividade e lance mão de métodos diferentes de comunicação para não se tornar cansativo.

O não dito
O corpo fala. Não esqueça que a expressão oral não é a única portadora de mensagens. Tudo o que você é e faz é importante para sua equipe. Você está carregado de significantes, usando a teoria de Roland Barthes. Sua vestimenta, sua conduta social, a ausência ou a presença a eventos de trabalho, comentários, expressões faciais, tom de voz, corte de cabelo... Tudo tem significado! Mas não precisa ficar neurótico e cercear todas as suas ações. Não perca sua essência e sua identidade! Lembre-se apenas de que as ações são mais efetivas para transmitir mensagens que as palavras.


*Mônica Alvarenga é diretora da MÚLTIPLA Comunicação e consultora na área de Comunicação Empresarial. É graduada em comunicação social/jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduada em marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
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